“O 25 de Abril une os portugueses, o 25
de Novembro não só não une as pessoas
como desune-as e, sobretudo deita pela
borda fora um conjunto de cidadãos
com qualidade”, disse o Coronel Duran
Clemente, no colóquio ‘Exaltar Abril,
desmistificar Novembro’, iniciativa
do BE que se realizou ontem no Hotel
Orquídea.
Na sua opinião, o processo de
desenvolvimento político que os
populares deviam ser estimulados
a aderir está posto em causa. Pois,
conforme fez questão de referir, devia
haver um esforço de todos para que desde
o 25 de Abril houvesse um programa/
processo que não fosse imposto, mas
que tivesse uma melhor adesão da parte
dos portugueses.
Por outro lado, prosseguiu o militar
de Abril, e contrariamente ao que
disse acima, há uma outra parte da
população portuguesa que fica arredada
de contribuir para esse processo de uma
forma natural. “Não somos assim tantos
para que se deite pela borda fora e se
despreze as contribuições de uma grande
parte da população que obrigatoriamente
tem que contribuir para a construção e
reconstrução do país”, sustentou.
Os populares que foram afastados
desse processo serviram de exemplo
para sublinhar o facto de, a seu ver,
ser necessário desmistificar o 25 de
Novembro que veio, no fundo, “dividir
os portugueses e enfraquecer o progresso
em Portugal”.
Apesar de alguns ‘esquecidos’, garantiu
que a memória do 25 de Abril, o antes
e o depois, não se apagou. “Pode estar
abafada mas existe”, reforçou.
Quem também diz que a memória ainda
está presente no consciente de todos,
embora com mais intensidade nos que
viveram de perto a sua fase de transição, é o Coronel Mário Tomé. (Diário Cidade)
Coronéis Mário Tomé (na foto) e Duran Clemente vieram falar de Abril.
"Dois dos 'capitães de Abril' estiveram ontem no Funchal para exaltar o feito desse dia realizado há 34 anos e os acontecimentos que levaram ao 25 de Novembro de 1975, uma data com a qual ainda falam com alguma resignação. Mas foi olhando para as consequências do golpe militar cerca de ano e meio depois da 'revolução dos cravos' que o coronel na reforma Mário Tomé apontou 'baterias' a três figuras de Estado que, diz, são 'seguidores' de Marcelo Caetano, o denominado marcelismo.
Alberto João Jardim, Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, no fundo o PSD, são a "evolução na continuidade do marcelismo", defende Mário Tomé. E explica porquê: "Quem quer comemorar o 25 de Novembro, como o Presidente do Governo Regional, penso que tem razão. Tal como ele, Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite são essa evolução na continuidade do marcelismo. Aliás, o PSD nunca aceitou o 25 de Abril como uma necessidade, tendo até defendido que não era uma revolução, mas uma continuação. É natural, pois eles nunca quiseram uma democracia a sério no país".
Indo mais longe na 'guerra de palavras', Mário Tomé diz que Jardim "impõe no seu quintal (a Madeira) a sua forma de actuar que chama de democrática, mas que é cada vez mais brutal sobre a participação das pessoas, cria cada vez mais condições de miséria e pobreza, que já vai a 31%", desfere.
E lembrou a proposta do Bloco de Esquerda-Madeira para que se volte a comemorar o 25 de Abril na Assembleia Legislativa regional é oportuna, acreditando que mesmo com a forma "anti-democrática" de fazer política e "senhores da sua prepotência e arrogância", o PSD e Jardim "vão ser obrigados a comemorá-lo outra vez".
Já o coronel Duran Clemente abordou a questão pelo prisma da memória colectiva do povo, que não se esquecerá do que foi o 'Estado Novo' e o que significou o 25 de Abril de 1974. "Até o 24 de Abril, a educação tinha um sentido, ou seja a memória era coarctada e afunilada", recorda. "Hoje, apesar de corrermos o risco de não se estimular o que foi a repressão, a PIDE, as prisões, as torturas, as pessoas que tiveram que desertar e emigrar, a informação não é controlada e, portanto, dificilmente a memória do que representou Abril será esquecida", conclui.
No colóquio organizado pelo BE-Madeira, onde se quis "exaltar Abril" e "desmistificar Novembro", juntaram-se cerca de 40 pessoas, entre as quais o deputado do PND, José Manuel Coelho, aliás assíduo participante em iniciativas dos outros partidos, da esquerda à direita." (DN/Blandys)

Mário Crespo da (SIC)
Com o major Mário Tomé, em 1972 em Moçambique.
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| Francisco José Cardoso |