Kissinger, Carlucci e a revolução portuguesa
Na memória cresce a história; sabemos no entanto que a memória dos povos é curta. Trabalhar por isso a memória, é uma exigência de cidadania e responsabilidade social.
Um dos aliciantes da reconstrução da História é a descoberta do que ficou submerso sob a capa do segrêdo.
Em 1974 os norte-americanos foram colhidos de surpresa pela eclosão do golpe do 25 de Abril.
A Aliança Atlântica (NATO) tinha a missão de fazer frente ao Bloco comunista do Pacto de Varsóvia. Washington olhava com atenção para a influência do PCP no processo revolucionário português. A desconfiança persistia apesar de Spínola
prometer aos EUA que comunistas e socialistas rápidamente sairiam fora do governo e apesar de Costa Gomes garantir ao seu homólogo Ford o «forte sentimento anticomunista dos portugueses».
Kissinger fez na altura um ultimato a Costa Gomes exigindo a saída de Portugal da NATO e Joseph Luns seu secretário-geral partilhava da mesma opinião.
Kissinger pensou na altura invadir Portugal com a ajuda dos fascistas espanhóis e distribuir armas aos socialistas portugueses.
Desconfiava dos militares moderados do grupo dos 9 e do próprio Melo Antunes como opositores sérios de Vasco Gonçalves e do PCP.
Quando se estava perto de um contra-golpe apoiado pelos americanos á revolução portuguesa valeu na altura a perspicácia do embaixador Carlucci que injectou paciência e pragmatismo na política norte-americana, fazendo Kissinger e a CIA mudar de ideias.Em vez de darem um contra-golpe de extrema-direita em Portugal e ficarem mal vistos na Europa, bem podiam confiar em Mário Soares esse sim um anticomunista convicto que impediria com certeza uma vitória do PCP no PREC. Comentador de politica internacional do nosso Blog
Aconselhamos aos nossos leitores uma leitura atenta do livro:
| Portugal Classificado |

Nuno Simas é o segundo da esquerda (foto retirada daqui)
Em 1975, Washington desconfiava de um governo comunista em Portugal e temia que os segredos militares da NATO fossem parar à mãos da União Soviética. Kissinger faz então um ultimato ao Presidente Costa Gomes para que os militares portugueses não participassem nas reuniões da Aliança Atlântica, nas quais eram discutidas questões de estratégia nuclear. Álvaro Cunhal foi tema de conversa em 1976 entre Ford e Brejnev, em Moscovo. O líder soviético garantiu que não conhecia Cunhal. E o que pensavam Kissinger e Ford de Mário Soares, Vasco Gonçalves ou Costa Gomes? Analisando centenas de documentos que durante anos estiveram classificados em Washington com o carimbo “secreto”, Nuno Simas revela-nos o retrato de um Portugal em revolução, visto pelos Estados Unidos..

António José Teixeira:
«Portugal classificado é um contributo de racionalidade que enriquece a memória dos primeiros anos de uma revolução que mais cedo do que muitos sopunham, acabaria por reintroduzir a democracia. É um trabalho que honra o jornalismo e a história portuguesa.»
(ver informação sobre esta revista aqui)





Marinheiros da Revolta conduzidos à prisão

Doca do Bom Sucesso.1936
Entrada dos marinheiros nas camionetas da polícia.
A foto correu mundo mas não apareceu em nenhum jornal português da época.
Supervivientes de la tragedia del gas de Bhopal se concentran en la víspera del 25 aniversario de la catástrofe en la ciudad india. El 3 de diciembre de 1984 unas 3.800 personas perdieron la vida a consecuencia de la fuga de 40 toneladas de una mezcla tóxica en la planta de la empresa de pesticidas Unión Carbide.
El león Laith bosteza en el zoo Ghamadan, en Amán.
Columnas de vapor de una planta de energía cerca de Cottbus, Alemania.
Vista del histórico Palacio de la Roca, al noroeste de Sana, en Yemen. Esta construcción fue realizada en 1786, consta de cinco pisos y es una de las principales atracciones turísticas del país
FOTO JUMENTO

Alcochete
O MURO DE BERLIM E AS VÍTIMAS DA PIDE
Foi justamente o 25 de Abril e os tempos da ditadura que não me saíram da memória durante a visita à prisão leste-alemã
«Há um mês, visitei em Berlim uma cadeia da Stasi, a polícia política da ex-RDA - Hohenschönhausen, hoje um museu aberto a quem queira conhecer o lado mais sinistro e secreto do regime comunista que vigorou na ex-RDA até à queda do Muro de Berlim. Mesmo para quem esteja familiarizado com os métodos repressivos de qualquer polícia política, através de leituras ou experiência própria, aquilo que se aprende em Hohenschönhausen não pode deixar de chocar e surpreender.
Alguns exemplos:
- a cadeia era secreta e a zona onde está situada nunca figurou em qualquer mapa da cidade. A cadeia e vários quarteirões à volta pertenciam ao aparelho repressivo do regime e ninguém podia circular naquela área;
- os presos, preventivos, eram sempre conduzidos em carrinhas fechadas cujos percursos eram tão erráticos quanto necessário para a vítima não ter noção do local onde estava;
- o regime interno era de total isolamento. Todas as celas eram subterrâneas (a prisão ficou conhecida como "submarino") e o preso nunca via ninguém além dos guardas e dos interrogadores. O "requinte" do isolamento ia ao ponto de haver "semáforos" nos corredores para evitar que alguém se cruzasse. Nesses casos, o guarda devia meter o preso na última cela do corredor (que estava sempre vazia para estas contingências), esperar que o caminho ficasse livre e só então prosseguir com o seu preso. As saídas das celas só se faziam para os interrogatórios, já que a comida era servida nas celas e as necessidades fisiológicas feitas num balde;
- o preso podia estar meses, anos, sem ver a luz do dia. As luzes das celas nunca eram apagadas e os presos só podiam dormir de barriga para cima e mãos por fora do cobertor. Os guardas vigiavam as celas de dez em dez minutos para ver se o preso estava na posição "oficial", a única que, segundo a Stasi, evitava tentativas de suicídio;
- muitos presos foram vitimados, anos mais tarde, por cancros provocados por radiações. Quando a cadeia foi desmantelada, descobriu-se que junto da máquina que tirava as fotografias e onde os presos eram deixados horas a fio, havia um aparelho a emitir radiações permanentes.
Claro que o sadismo vivido em Hohenschönhausen incluía também os truques do polícia bom e do mau, do interrogatório "sem" gravador, das celas forradas a borracha e inundadas de água, de vários instrumentos de tortura, métodos abundantemente praticados pelas polícias políticas, incluindo a portuguesa PIDE.
Em Hohenschönhausen (que em alemão, ironicamente, significa casa alta e bonita), podia-se entrar pelos motivos mais absurdos. Por se ser opositor do regime, naturalmente, mas também apenas por se conhecer algum opositor do regime. Como o caso de uma professora, submetida a tortura de sono e outras violências, porque não denunciou um colega de faculdade que tinha fugido para o Ocidente. E podia sair-se de lá, para cumprir pena noutra cadeia, também com as sentenças mais absurdas. Como o caso dos cinco estudantes que contestaram o regime nos anos 50 e cuja sentença tem data anterior ao "julgamento" a que foram submetidos e foi redigida pelo próprio Walter Ulbricht, o presidente do partido e do país.
A sociedade policial construída na ex-RDA atingiu paroxismos assustadores. Houve filhos a denunciar pais, pais a denunciar filhos, maridos a denunciar mulheres. O caso talvez mais célebre foi o da mulher que esteve presa cinco anos e que só descobriu muitos anos após o Muro cair, ao consultar os arquivos da Stasi, que tinha sido denunciada pelo próprio marido, com quem ainda estava casada. O marido escapou a tudo, mas acabou divorciado e denunciado num livro que ela escreveu sob o título literalmente certeiro Dormindo com o Inimigo.
A Stasi tinha 91 mil agentes para uma população de 16 milhões de habitantes, enquanto a Gestapo de Hitler tinha "apenas" 70 mil para uma população de 65 milhões. Além dos 91 mil agentes, havia 180 mil informadores que eram os olhos e os ouvidos do regime. Potencialmente toda a gente era vigiada e escutada. Quando foram abertos os arquivos, verificou-se que havia seis milhões de pessoas "fichadas", ou seja, 37 por cento da população. O regime desconfiava de quase metade da população, apesar de governar em nome do povo.
Hohenschönhausen era uma prisão secreta, como já referi. Ninguém sabia que existia, nem os próprios presos sabiam onde tinham estado. O secretismo era tal que só foi desmantelada em... Março de 1990, cinco meses após a queda do Muro. As indefinições de poder na RDA após a queda do Muro ajudaram à sobrevivência da cadeia, mas a sede oficial da Stasi em Berlim foi assaltada por manifestantes e desmantelada em Janeiro de 1990. Contudo, Hohenschönhausen funcionou ainda mais dois meses. Ao escutar esta história, lembrei-me como em Portugal a sede da PIDE foi assaltada pelos manifestantes na própria tarde do 25 de Abril e como as restantes cadeias foram abertas nessa noite ou no dia seguinte.
Foi justamente o 25 de Abril e os tempos da ditadura que não me saíram da memória durante a visita à prisão, estabelecendo um paralelismo inevitável entre a Stasi e a PIDE. E aí uma terrível ironia se insinuou: as maiores vítimas da PIDE, os comunistas portugueses, sofreram horrores idênticos às vítimas da Stasi, quando lutavam por um projecto político e pela instauração em Portugal de um regime em tudo idêntico ao da ex-RDA. Que, fatalmente, mais tarde ou mais cedo não dispensaria uma qualquer Stasi. Um paradoxo? Nem tanto, como o século XX demonstrou. Acima de tudo, uma terrível ironia histórica.» [Público]
VÍTIMA do acidente na fabrica Bhopal, India, em 1984
Roberta Murgo
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