Apesar de actualmente se encontrar a disputar o 'regional' da I Divisão, o Sporting Clube Santacruzense já teve os seus tempos áureos, quando competia ao mesmo nível que Marítimo, Nacional e União.
Fundado em 1935 por adeptos que nutriam simpatia por Sporting e Académica (daí a razão das cores ser o verde e o preto), só 25 anos mais tarde o clube regenerou-se e através de uma liderança forte e de uma boa campanha de marketing foi desbravando as muitas barreiras existentes até atingir o patamar mais alto do futebol madeirense.
João Ildefonso foi o grande mentor e impulsionador da 'refundação' do Santacruzense, na década de 60, onde iniciou o processo de filiação na então Associação de Futebol do Funchal. Chefe de secretaria do município de Santa Cruz, que nesse tempo tinha mais poder que o presidente da autarquia, moveu influências e meios para a construção do campo municipal, dotando-o de bancadas, balneários e um piso drenado, de forma a poder ser utilizado para jogos oficiais. Depois do Estádio dos Barreiros e do Campo do Liceu, no Funchal, o 'Municipal' de Santa Cruz foi o terceiro recinto, o primeiro fora da cidade, a reunir condições para se jogar futebol federado.
Foi na liderança de Ildefonso que o clube construiu grandes equipas de futebol, conquistando cinco títulos consecutivos na Promoção, o último na época 1965/1966, rivalizando com o Sporting da Madeira pelo estatuto de terceiro maior clube da Madeira.
Na década 1960/70, Santa Cruz começa a surgir na ribalta. A Madeira começa a expandir-se para o exterior após a inauguração do aeroporto de Santa Catarina (1964), e o clube de futebol seguiu-lhe as pegadas, extravasando até açambarcar títulos e atingir os 'nacionais'.
O futebol do Santacruzense teve duas grandes 'levas'. A primeira, a que ganhou os seis títulos da Promoção e que andou num vaivém entre o secundário e o escalão máximo. A segunda foi a dos anos 70/90, com uma equipa formada basicamente por jogadores da terra e que conquistou vários títulos e troféus em competições regionais.
Foi com este naipe de atletas que o DIÁRIO se reuniu, registando histórias e memórias de outros tempos, um encontro/convívio que contou com a presença do decano Silvestre, uma referência do clube dos tempos da Promoção. Ele e outros mais devem ter vestido pela última vez uma camisola que outrora ajudaram a conquistar tantas glórias.
Uma equipa que jogava com os 'olhos fechados, conforme os próprios confessam com orgulho. Na baliza pontificava Quintal, um guarda-redes difícil de bater quando 'engatava'. Os laterais eram dois 'ossos duros de roer', José Luís 'Finca' na direita e Ascensão na esquerda. Dois 'navalhões' com fama e com proveito.
Ascensão acabou transferido para o Marítimo, enquanto José Luís apenas conheceu uma camisola. No centro da defesa, Manuel e Teodoro, formavam uma dupla segura, 'política' e desportivamente correcta.
Muito afinada era a 'orquestra' no meio-campo, onde Óscar Marujo tratava a bola como poucos, colocando-a com mestria onde queria. Foi dos melhores jogadores da sua geração, acabando no Marítimo, a exemplo de Zeca. Araújo e o 'todo o terreno' Vieira (que surgiu mais tarde), enquanto as alas mortíferas, Martins (direita) João José (esquerda), eram os 'senhores' assistentes 'à antiga' para o matador 'Viveiros' se encarregar de concretizar. Pereira, Humberto, David, António, Óscar Rodrigues, Evangelista, Carlinhos, Gouveia, Rossana, foram outros jovens da cantera integrados.
Grande arraial com ajuda de um 'Mestre'
O Santacruzense ganhou 5 vezes consecutivas o Torneio da Promoção, mas só 'à quinta' conseguiu vencer o Sporting da Madeira no Torneio de Competência e subir à I Divisão Regional. Aconteceu na temporada 1965/1966. Tudo foi minuciosamente preparado pelo presidente João Ildefonso, desde a escolha do treinador, Jacinto Mestre, até ao recrutamento de alguns jogadores profissionais, entre os quais se destacavam o brasileiro Baptista (avançado, que depois se transferiu para o Famalicão, da I Divisão), Nogueira (ex- Oriental) e Barreiros. Uma campanha de marketing e uma mobilização geral redundou num sucesso.
No jogo da 1ª mão disputado no Estádio dos Barreiros, o Santacruzense aproveitou o facto do Sporting da Madeira jogar desfalcado devido a uma crise interna e venceu por 1-0. Já em Santa Cruz os ´leões' alinharam na máxima força, massacraram, mas não foram além do empate sem golos. O jogo da subida coincidiu com uma festa religiosa, e com a multidão que se deslocou ao campo de futebol o 'arraial' não poderia ter sido maior.
Na 1ª época, treinados por Ibañez, ainda se aguentaram no escalão máximo regional, competindo com Marítimo, Nacional e União, mas no 2º ano a equipa passou a ser orientada pelo treinador-jogador, Rafael, descendo de divisão.
Bráulio França e Óscar Marujo 'faltaram à chamada'
Duas figuras incontornáveis do desporto, do clube e da cidade 'faltaram' ao encontro. Falamos de Bráulio França e de Óscar Marujo. Mais do que ninguém tinham muitas histórias para contar, uma vez que durante muitos anos deram muito do seu saber e querer à 'segunda família'. Bráulio, para além de jogador foi relevante dirigente. Assumiu com coragem e amor a liderança do clube, quando se encontrava vetado ao abandono. Já Óscar Marujo foi um exímio praticante e treinador desde a formação aos seniores, tendo passado ao lado de uma grande carreira.
'Faltaram à chamada' porque desapareceram recentemente do mundo dos vivos, mas estas figuras carismáticas foram recordadas, a exemplo de José Manuel e David 'beka', este de uma geração mais recente.
Martins, actual elemento da direcção liderada por Gil Alves, fez de cicerone. O 'machiqueiro' Viveiros não trouxe o fato como no dia da apresentação, mas fez questão de fazer a diferença com um chapéu 'lacoste'. Ascensão fez-se acompanhar de muitos recortes de jornais, tantos que davam para fazer uma exposição. Mais diplomáticos e reservados apresentaram-se Luís Gabriel e Gil França, antigos jogadores e ex-dirigentes do clube e… rivais políticos.
Campo nas Eiras é "erro colossal e retrocesso"
Apesar da nova imagem que Santa Cruz apresenta e que todos aplaudem, as críticas surgem sobre o local (Eiras) onde foi construído o complexo desportivo, agora denominado Bráulio França, em homenagem ao ex-dirigente. " Um erro colossal e um retrocesso", foi como vários antigos jogadores consideraram, por ficar situado muito afastado das zonas habitacionais. A opção defendida era na ribeira da Boaventura onde existe o Aquaparque, bem perto das escolas. Só de transportes o clube gasta uma 'pequena fortuna' e com aquela distância 'ninguém vai à bola'…
Martins resolveu o 'problema' de Amaral
No ano de 1980, Marítimo e Santacruzense disputaram à noite, no campo do Liceu, a final do torneio 'José Mendonça'. A equipa 'verde-preta' estava nos seus tempos áureos, cheia de força e com o astral em alta, pois acabara de eliminar o Nacional. Perto do final, o jogo mantinha-se empatado sem golos, até que se ouviu em voz alta o guarda-redes Amaral: "Oh pá, não me digam que ainda vai prolongamento"? Pouco tempo depois o Santacruzense marcou, através de Martins e o capitão logo ripostou: " Podes ir para casa que já resolvi o teu problema". Ainda veio o 2.º golo...
Zeca 'ganhou' o medo de viajar de avião
Em 1971 despontou em Santa Cruz um craque que, ainda com idade de júnior, transferiu-se para o Marítimo. Para além do valor pecuniário (50 contos pagaram na altura os verde-rubros), o Santacruzense ainda recebeu os empréstimos de Faria, Carlos Gomes e Rui (irmão de Ângelo), que no regresso aos 'verde-rubros' impôs-se na I Divisão Nacional. Zeca ganhou títulos no Marítimo e também o medo de andar de avião, numa altura em que o aeroporto era de reduzidas dimensões. De tal forma que se recusou a viajar para os Açores numa eliminatória da Taça de Portugal.
Fernando 'Titaia' humilha João Baptista
O futebol é emoção, espectáculo, mas também diversão e até chacota. Num Santacruzense-Machico, alinhava na baliza de Santa Cruz o conhecido papa-léguas, João Baptista, um intempestivo machiquense que não parava de correr. Do lado de Machico, brilhava o avançado Fernando, mais conhecido por Titaia.
Fernando e João Baptista eram duas incontornáveis figuras de Machico e enfrentaram-se nesse jogo com o campo 'à cunha'. Numa jogada, Fernando surgiu isolado, mas rematou denunciado e João Baptista defendeu. Momentos depois, ocorreu uma situação idêntica, só que desta vez simulou, 'sentou' o guarda-redes de Santa Cruz e fez golo. Foi a gargalhada geral dos adeptos tricolores que se encontravam atrás da baliza. João Baptista não gostou da humilhação, barafustou, protestou e foi até ao meio-campo a gesticular, pedindo explicações a Titaia.
Com Cristo, Espírito Santo, Cardeal e um padre
Houve uma equipa do Santacruzense no tempo da Promoção/I Divisão, onde no onze base alinhavam jogadores com nomes associados à Igreja Católica. Havia um Espírito Santo na baliza, um Cardeal na defesa e um Cristo no meio campo. Mas o espírito religioso não se quedava apenas dentro de campo, porque na direcção havia o padre Patrocínio.
Tudo mudou quando mais tarde o clube contratou o "diabo'… 'à solta' para a baliza e teve de ir jogar ao campo do Calvário (Taça de Portugal, em Vila Real)…
Luís 'Cabrito' não sabia para que baliza chutar
Ontem como hoje, quanto mais jogadores um clube inscrevesse mais aumentava a contribuição financeira. Aquilo era federar atletas em maior número possível e é aí que o clube inscreve nos juniores um jovem de Gaula, com o nome de Luís e alcunha de 'Cabrito'. Mesmo sem treinar, foi convocado para um jogo no Funchal. Começou no 'banco' mas a dada altura entrou. Pegou na bola e rematou para onde estava virado, fazendo um auto-golo. Indignados, os seus colegas confrontaram-no ao que Luís 'Cabrito' terá retorquido: "Então não é para meter a bola entre os paus"?
Asdrúbal: o desertor, professor e escritor
Uma história do 'arco da velha' foi contada por Asdrubal, ponta-de-lança que jogou durante três anos com o emblema 'verde-preto. Estava a cumprir o serviço militar numa unidade do continente quando decidiu desertar e fugir para a Suécia (onde residia um irmão), no princípio dos anos 70. Sem passaporte nem ajuda de ninguém, lá conseguiu passar fronteiras até chegar à Holanda onde encontrou um amigo, filho de um funcionário da embaixada, que entre trocas a baldrocas (colocou a foto noutro passaporte) e resolveu o problema. Na Suécia estudou, foi professor universitário e agora dedica-se a escrever livros. Já editou 4 ('O Ausente', 'Vencedor/Vencido', '2510, O Último Baluarte' e 'A vitória de Pirros), e em breve vai lançar mais dois: 'Úlcio e Farael, a Importância Relativa do Berço' e 'Contos e Outras Histórias'.
Ganharam o troféu, mas não receberam dinheiro
Com a subida do Marítimo aos nacionais de futebol, em 1973/1974, houve um alargamento na I Divisão Regional, de 4 para 6 clubes, mas manteve-se a competição denominada Taça da Cidade. Com Nacional e União na 'mó de baixo', o Santacruzense foi o vencedor do torneio apoiado pela Câmara Municipal do Funchal. Mas como era um clube fora da cidade apenas recebeu o troféu, uma vez que a autarquia negou-se a entregar o prémio pecuniário. A 'dívida' mantém-se até hoje.
Luís Gabriel no Real Madrid 'antes' de CR7
Antes de Cristiano Ronaldo, um outro madeirense esteve perto de ingressar no Real Madrid, Luís Gabriel, de seu nome. O internacional espanhol, Ibañez, era amigo pessoal de Henrique Munhoz, técnico do Real e indicou-o ao clube madrileno.
Também Benfica e Académica entraram na corrida, custeando os próprios estudos do atleta, mas uma lesão grave aos 18 anos, o apego à sua progenitora e a mobilização para o Ultramar deitou tudo por terra. Luís Gabriel quase lá chegava. (com a devida vénia do DN/Madeira)
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